As
queixas e observações são quase sempre muito
parecidas. Na grande maioria das vezes o que se apresenta é
um quadro no qual a dificuldade de diálogo franco e natural
aparece como pano de fundo de situações mais específicas,
que vão desde brigas e discussões causadas por motivos
aparentemente fúteis, até um comprometimento mais acentuado,
levando ao uso de drogas, afastamento da família ou apatia
e desinteresse por parte dos filhos (principalmente no período
de pré-adolescência em diante), quando convidados a participar
de assuntos que, em situações de “normalidade”,
atrairiam sua atenção.
As
afirmativas concernentes ao interesse dos pais pela vida dos filhos,
à proximidade física e emocional e ao compartilhamento
de questões próprias desta faixa de idade,- pelo menos
dentro da ótica dos pais - , remetem sempre a aspectos positivos.
Frases
do tipo “trabalho muito, é verdade. Por isto, tive sempre
pouco tempo para estar com meus filhos. Mas o pouco tempo que passamos
juntos tem sido de ótima qualidade. Não é isto
que vale? A qualidade do tempo que passamos juntos? Além do
mais, sempre fui um bom provedor. Lá em casa nunca faltou nada”.
Esta última parte da afirmativa vem, quase sempre, num tom
de justificativa, na voz de alguém que se tornou uma quase
vítima de uma situação inevitável.
Seria,
realmente, a qualidade da relação o âmago da questão?
Isto
me faz lembrar dois exemplos que podemos usar aqui a título
de ilustração.
Certo
pastor, um indivíduo extremamente comprometido com sua igreja
e com suas ovelhas, em conversa com colegas, estava sempre afirmando
que uma de suas maiores preocupações com relação
ao desempenho do ministério estava ligada à visitação
às famílias da igreja.
Durante
um culto, no qual apresentava um sermão bastante voltado para
a edificação do seu rebanho, chamava atenção
para o aspecto de sua disposição em estar sempre presente,
respondendo às necessidades da igreja. E num ímpeto
de certeza, lançou, de púlpito, o desafio. “Aquele
que nunca recebeu deste pastor uma visita na qual tivesse a oportunidade
de abrir seu coração e tratar de questões aflitivas,
manifeste-se levantando uma das mãos.”
Qual
não foi sua surpresa quando sua esposa e seus dois filhos se
manifestaram obedecendo ao chamado, apesar da dificuldade e do constrangimento.
Naquele
momento o pastor percebeu, instantaneamente, o furo. Sua excessiva
preocupação, suas horas de trabalho intenso, visando
atender às demandas da igreja tinham um nome. Ativismo.
Sua
própria família estava desguarnecida e necessitando
tanto de sua presença que não titubeou em se manifestar,
mesmo que tal atitude causasse aquele desconforto.
Este
ativismo tem causado uma série de transtornos familiares e
como vem disfarçado de forma sublime, - uma vez que o trabalho,
seja ele eclesial ou secular, é realmente necessário
-, passa a ser pouco observado. E se é constatado, é
imediatamente justificado. Assim, um sem número de famílias
de pastores se vêem vitimadas.
Há
algumas décadas, pesquisa elaborada nos Estados Unidos, tinha
como foco a questão da delinqüência entre jovens.
Dentro das estatísticas um determinado dado chamou atenção.
O perfil delinqüente aparecia de forma muito mais discreta e
em muito menor número entre as famílias de orientais,
(especialmente japoneses), que nas famílias americanas. Qual
seria a causa? Onde estaria o motivo da discrepância? Seria
a causa uma questão cultural? Seria óbvio pensar que
sim.
A
verdadeira causa era muito mais simples e uma consequência de
ordem prática.
Por
questões econômicas, os imigrantes japoneses escolhiam
seu local de moradia o mais próximo possível do local
de trabalho. Isto possibilitava o deslocamento a pé além
de proporcionar a chance de retornarem para suas casas no horário
de almoço, momento que era extremamente valorizado, passado
junto à família.
Estas
duas horas de almoço eram gastas em conversas informais, debates
familiares; enfim em relacionamento familiar em torno da mesa, o que
definitivamente não acontecia entre as famílias americanas,
que obedeciam ao sistema de trabalho de 9:00 às 5:00, adeptos
ao Fast Food.
O
simples fato de almoçar em casa proporcionava aos japoneses
a oportunidade de estarem juntos. Aumentava o período de tempo
que pais e filhos passavam juntos. Convívio.
Assim,
Qualidade + Quantidade de relacionamento
= Menor Delinquência.
Esta
era a fórmula, alcançada quase acidentalmente pelos
japoneses, em função de uma realidade econômica
desfavorável.
Era
a necessidade transformada em bênção.
A
afirmativa “O tempo que passo com meus filhos é curto
mas de excelente qualidade”, pode até funcionar como
válvula de escape. Mas a Quantidade de Tempo “gasto”
com a família é fator fundamental para que questões
simples sejam tratadas enquanto simples, evitando que cresçam
e se tornem problemas.
Se
você acha que o tempo não é assim tão importante,
pergunte o valor de 1 segundo a um corredor de Fórmula 1! Ou
o valor de meia hora a um casal de namorados!
A
propósito. A prática do Slow Food tem se difundido amplamente
em países europeus onde, mesmo atarefados homens de negócios,
têm descoberto o prazer e os benefícios do tempo passado
com a família.
(Fonte:
Dr. Guilherme Torres de Oliveira)